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FISSURA

Fissurando os sentidos!
30 October

CARLITO RODRIGUES: A PINTURA COMO PASSAGEM PARA UMA TERRA DE LUGARES MOVEDIÇOS

CARLITO RODRIGUES: A PINTURA COMO PASSAGEM PARA UMA TERRA DE LUGARES MOVEDIÇOS

 

“Venham amigos, tomem a mão de Carlito e passem para o outro lado”. Assim uma voz anuncia o encontro entre o espectador sem nome e a pintura de Carlito Rodrigues. Esse anúncio, em seguida, se constituiria para o espectador em uma passagem para uma terra de lugares movediços, tão logo seus olhos se abrissem diante do encantamento a que cada lugar-pintura o envolvesse: e é o que inevitavelmente se instaura quando desse encontro. Desde que chegados a essa terra de mistérios pictóricos, o outro lado a que a voz se referia, não mais voltar é necessário, pois já se é outro desses muitos que ora são, enredados por essa intrincada espacialidade tecida no corpo do tempo.

O acontecimento-pintura em Carlito Rodrigues plenifica-se naquilo que demanda vivência. Sim, não há como olhar para cada micro-universo que se edifica no tempo senão por uma medida ampliada de vivência, pois diante daquilo que pode ser o banal, reveste-se em possibilidades de descoberta das passagens que o pintor tece numa temporalidade abismal. Há bloqueios na entrada: anteparos de cor que se deslocam nos diversos campos da obra. Uma mutabilidade matérica que apela a que o espectador se mova para tentar passar para o outro lado. O que se espera é logo chegar, mas sair é inconcebível, pois os lugares movediços dessa geografia, apreendem o olhar que se torna presa fácil dos vários tons, nuanças, “veladuras”, transparências e texturas. Estamos no centro de um lugar que ora oculto se veste em muitos lugares e em apenas um. Mundo quase louco, diríamos com Merleau-Ponty, que dispara: “o mundo do pintor é um mundo visível, simplesmente visível, um mundo quase louco, pois que é completo sendo, entretanto, meramente parcial”; o que já nos remete ao estado de frementes confusões, sendo que essa parcialidade é completude. Mas quem precisa de um lugar certo, estável, completo? Carlito sabe que os muitos-mesmos lugares que ergue, pode nos remeter àquelas inevitáveis e esdrúxulas necessidades de identificar os signos do mundo real: o Rio, o Corcovado, a favela, alguém: mas a voz volta a insistir: “Venham amigos, passem para o outro lado, passem, aqui esses lugares já não mais estão”.

Qual sóbrio não seria ficar ali encontrando e brincando com as fagulhas sígnicas que já se tornaram velhas. “Não!”, a voz grita do fundo do seu vazio especular. “Todas as passagens são possíveis e nenhuma é! Então tentem, tentem!” E o olhar se enche de temores. E as dores dos dias reeditam seus pesares. E o tempo reflui em doses de insustentabilidade. E a voz de Merleau-Ponty volta à cena: “essência e existência, imaginário e real, visível e invisível, a pintura baralha todas as nossas categorias ao desdobrar o seu universo onírico de essências carnais, de semelhanças eficazes, de mudas significações”. Eis o que de necessário é o habitar em nós: a condição da pintura como acontecimento que baralha as nossas categorias. As dualidades impressionantes a reedificar nossas tristes certezas, na medida mesma em que já tivermos atravessados para o tempo-lugar da pintura de Carlito; que não se quer como a fácil escalada pelas representações usuais e comparações cínicas, mas o constante surgimento de todos esses lugares que são o mesmo dele próprio a incitar o olhar que nem sequer precisa estar ali. “Voltem todos que não esperam o tempo do olhar”, é a insistente voz a nos insultar.

Mas, tarde é para que se volte, pois o primeiro olhar já é o que nos enreda a outros tantos olhares para a descoberta dos lugares movediços que são possíveis em Carlito. Lugares dele, lugares nossos, lugares outros. Tal é o ampliado dessas mutabilidades pictóricas que não se perdem, não se fixam, não acabam... “Voltem, voltem, voltem...”.
25 October

UM CONTO PRO RIO DE JANEIRO

 

ADOLESCENDO SOLAR

(Epílogo)

 

“Olha o menino ui. Olha o menino ui ui ui...[1]  Sentado, cabeça recostada na parede de tijolo cru. Altura vertiginosa e impressionante, o que permite um ângulo perfeito para se observar o movimento dos carros na principal entrada da favela, o sobe e desce dos moradores, os estranhos que por ali circulam em busca de viagens de cabeça.  Os dedos amaciam o gatilho do seu AR15. Eu só quero que Deus me ajude. E o menino muito mais também.... Boné na cabeça, camisa do Flu, jeans surrado. Ele sempre achou o Rio mais lindo do alto. Enrola um brown lentamente para sobreviver à dureza do dia em seu primeiro emprego. Pegou às oito e vai até às dezoito. Horas extras são sempre bem-vindas, afinal, tem que ajudar a mãe que vende balas no Centro e o irmãozinho Renan de seis anos que ele não deixa sair da escola porque sabe que as crianças são o futuro do Brasil. Pois a rosa é uma flor. A flor é uma rosa... E o menino não é ninguém. Aos onze anos se acha velho para estudar. Seu negócio mesmo é trabalhar. Tragada perfeita e o vento leva para longe a fumaça em ondas misteriosas. Olhos ardidos. Cabeça flutuando no vazio do dia ou nos mistérios da paisagem. Olha o menino ui. Olha o menino ui ui ui... O dia não tá muito quente hoje. Há um quê de leveza no clima. Mesmo assim a tarde o impressiona. O sol lambendo o teto da cidade e um silêncio que se anuncia no horizonte entrecortado de montanhas. A beleza da paisagem é inversamente proporcional à sua lida diária. Outra tragada. E o mundo fica mais leve. Acena para o outro lado para um dos parceiros. É a barra tá limpa. E a empresa ganha com sua eficiência e competência. Há seis mil anos o homem vive feliz. Fazendo guerras e asneiras... Olha para seu fuzil e o acarinha. Instrumento de trabalho tem que ser bem cuidado: limpinho e brilhante como as botas de soldados em quartéis tediosos. Ele não precisa de botas. É um soldado do tráfico, sem botas e nada mais. Recosta-se novamente e saca um cigarro. O tempo não passa. Há seis mil anos Deus perde tempo. Fazendo flores e estrelas... Os dias são assim longos e insuportáveis. Mas não há mais saída. Só pensa que o fim de semana tá chegando e vai circular por aí com grana no bolso. Um tênis novo, capital girando na mão da mãe e uma bola oficial pro Renan jogar com os colegas nas vielas da favela. Olha o menino ui. Olha o menino ui ui ui... A tarde vai caindo e ele ali recostado, abraçado em seu fuzil. Guerrilheiro urbano em busca de sobrevivência e as facilidades que o tráfico promete. O sol começa a recolher seus raios da cidade e ele sente que tá quase na hora de bater o ponto. Logo virá outro substituí-lo no próximo turno. Um cinza azulado vai tomando conta da paisagem em contraste com o solzinho a perder-se ao longe. Ocaso aterrador. Prenúncio de emoções novas. Eu sou um homem sincero. Porque nasci cresci e vivo livre... E o silêncio de fim de tarde dissipa-se com o som do helicóptero que corta o céu já adentrando a noite. Por sobre o morro tudo reacende em tensão. Gente correndo de um lado para o outro. Sirenes ensurdecedoras e policiais esgueirando-se pelas ruas estreitas invadindo a favela. Ele acena outra vez para o outro lado. Não dá mais tempo de trocar de turno. Só tem tempo mesmo de acender seu cigarro e se preparar para mais uma de suas batalhas. Dispara suas balas rumo aos policiais. Puxa o boné para trás e já tá ligado na face mais dura de seu trabalho e também na mais corriqueira. Os raios do sol foram substituídos pelas luzes dos tiros dos fuzis que atravessam o morro. Trilha sonora comum, ensurdecedora e triste. As manchetes de jornais serão as mesmas: “Policiais são recebidos à bala no morro X por traficantes”. O óbvio ululante? Não sejamos exigentes em querer manchetes do tipo: “Policiais são recebidos com flores por traficantes no morro Y.” Guerrilha urbana ad infinitum. Eu sou um homem sincero. Que quero morrer nascer e viver livre...  Entre um disparo e outro a mãe e o irmão atravessam seu pensamento numa medida infinitesimal de tempo. Tudo está tensionado: músculos, olhos, boca, dedos, costas. Só tem 11 anos e já é uma máquina mortífera a serviço da sobrevivência. Não por muito tempo. Seu corpo de menino é atravessado pelos tiros dos policias que surgem por todos os lados subindo as escadarias. Ele cai debatendo-se com o corpo cravado de bala. As estatísticas exultam com seus sorrisos sádicos. A mãe vai gastar mais lágrimas que de costume, mas vai continuar vendendo suas balas inofensivas para os transeuntes no ponto do ônibus. Renan vai ter que ficar sem sua bola nova. E o menino vai ser lembrado nos documentário de uma ONG. Talvez até a trilha seja Caetano cantando Jorge Bem Jor de um modo mais angustiante que no Bicho: Olha o menino ui. Olha o menino ui ui ui.

Rio/outubro/2006.

[1] Olha o Menino (Jorge Ben Jor). Gravada por Caetano Veloso no disco Bicho (1977).
21 October

HOMENAGEM aos 15 anos do NEVERMIND do NIRVANA

Do meu livro de contos ADOLESCENDO SOLAR
 
 

“SMELL LIKE TEEN SPIRIT”[1]

  

Televisão ligada.

- Você não vai comer?

- Vou.

- Então desliga a TV.

- Pér’aí.

- A comida está na mesa, vai esfriar.

- Tá bom.

- Vem logo.

- Já vou.

- Tá muito alto o volume dessa TV.

- É, eu sei.

- Essa não é a banda do cara que se suicidou?

- Nirvana.

- Ele grita muito.

- É rock.

- O rock num tinha morrido?

- É o que dizem.

- Morreu com esse cara, então?

- Não.

- Então o quê?

- Cala a boca, mãe!

- É, não morreu mesmo.

 

 



[1] “Cheira como um espírito adolescente”. Música do Nirvana do disco Nevermind (1991).

 
 
7 August

CRÔNICAS DELIRANTES

 
 
 
 
TRAVIS: UMA DROGA COM SUBSTÂNCIAS PERFEITAS
 
 Travis é uma banda que me alivia as dores do mundo. Algo como uma espécie remédio controlado: na minha prescrição médica imaginária está indicado: 1X ao dia; mas isso nunca ocorre, pelo fato de ser um viciado nesse tipo de droga. A banda escocesa contém substâncias do tipo: canções simples, baladas perfeitas, melodias leves e letras despretensiosamente sentimentais. O foda é que tudo que cura vicia. E eu adoro o fato de não entender nada sobre vícios. Esse mal começou em 2002 quando conheci o The Man Who, disco de 1999, e não parei mais de me drogar. Fui de fato impactado naquela época pelo contato com o poder do disco. O single Why Does It Always Rain On Me estava em destaque e me lembrava uma insólita noite de chuva em que eu também havia mentido quando tinha dezessete anos: (why does it always rain on me? is it because I lied when I was seventeen?). Assim estava se construindo uma identidade estranha com essa banda e especialmente com esse disco.
Mas tudo estava apenas começando. Estava no meio da escrita da dissertação do mestrado; e na sala que usava para pesquisa havia grandes janelas de vidro que davam para um gramado com árvores enormes. Em inúmeras tardes entre 16:00 e 17:00h a chuva caía forte e o gramado e as árvores ganhavam um tom de verde embranquecido pela chuva. Mais uma vez lá estava eu a contemplar a chuva e escutando Travis. O vento forte lá fora atirava as folhas pelo ar e minha mente flutuava para lugares estranhos e eu era acometido por uma tristeza maravilhosa quando Fran Healy começava a cantar Turn: I want to see what people saw. I want to feel like I felt before. I want to see the kingdom come. I want to feel forever young. I want to sing. To sing my song. I want to live in a world where I belong I want to live I will survive. Versos de beleza uma simples, mas duradoura. Nas estrofes a bateria marca a pulsação produzindo uma leveza magistral; a guitarra produz um diálogo disforme e ao mesmo tempo complementar com os outros instrumentos, criando uma tensão peculiar na sonoridade desses escoceses de olhos azuis.  E o resto era minha solidão e melancolia que esse disco tanto gerava, estranhamente produzindo tranqüilidade e leveza.
Turn sempre me deixou jogado. O refrão de fato me faz rodar a ponto de eu repetir por diversas vezes a música sem cansar: doses cavalares de tristeza na veia e algo como um abrigo perfeito no reino (kingdom) da beleza. Esse disco é recheado de lindas canções: a tristeza de As You Are, a sutileza “concreta” de Driftwood (Rivers turn to butter, butterfly and low. Low is where your heart is, but your heart has to grow), a delicada Slide Show, a belíssima The Fear, em que reforçava meu olhar na cena da janela: (And so all the trees forgot to wake. They were dropping all their leaves. On the ground below them).
Essa leveza que há em Turn está ligada à minha obsessão por baladas simples, no geral, aquelas em que o violão está na essência da canção. É o que sinto também em Indefinetly do disco posterior The Invisible Band de 2001 ou em Paperclips do 12 Memories de 2003. Tudo anunciado com as três últimas e lindíssimas canções do primeiro álbum da banda, Good Feeling (1996): More Than Us, Falling Down e Funny Thing. Uma espécie de prenúncio da perfeição menlancólica e não menos existencial do Travis. Sintam o refrão de Funny Thing com a guitarra nos arrastando para um estado de beleza e dor: (When you're closing all the doors/ It's not funny anymore). 
Geralmente baladas não precisam de grandes arranjos, pessoalmente me contento com uma bela voz carregando a tensão necessária. Isso me leva a pensar em Telhados de Paris do cantor e compositor gaúcho Nei Lisboa do disco Hein?!, que para mim está entre as melhores músicas do mundo (com perdão do exagero); nela também há algo de triste pois esse disco — só descobri isso tempos depois — é marcado por uma tragédia.
Digamos que o mistério da obra de arte se revela na medida em que aprofundamos a relação com ela. É sempre uma questão de partirmos em busca de descobertas que não estão ali tão explícitas. É o que de certo modo o mestre japonês Akira Kurosawa nos mostra no filme Sonhos: a relação de um espectador com a obra Trigais com Corvos de Van Gogh. O espectador atravessa lugares até encontrar o próprio autor com sua orelha cortada no meio dos trigais a nos dar o mundo em fabulosas pinceladas. E o diálogo se intensifica e a relação explode, obceca. Ele descobre os mundos que a obra sugere. Tal descoberta leva tempo, o que nos dias atuais não nos permitem frente à aceleração que o tempo contemporâneo nos imprime.
O convívio com The Man Who e os outros discos do Travis me permitiram descobertas e lugares sempre novos. Lugares aqui têm o sentido não só de uma realidade concreta, mas da possibilidade de deslocamento mental em que são constituídas essas imagens, essas paisagens imaginárias. É o que no geral está na base de toda relação produzida pelos objetos de arte e pelas substâncias alucinógenas de diversos teores, até que se atinja novas experiências embriagantes. O filósofo alemão F. Nietzsche faz menção a isso em O Nascimento da Tragédia: “seja por influência da beberagem narcótica, da qual todos os povos e homens primitivos falam em seus hinos, ou com a poderosa aproximação da primavera a impregnar toda a natureza de alegria, despertam aqueles transportes dionisíacos, por cuja intensificação o subjetivo se esvanece em completo auto-esquecimento”(p.30). Essa experiência nos aproxima da condição de possibilidade que os estados viciantes, obsessivos e entorpecedores nos remetem, espécie de similaridade com a matéria concreta dos narcóticos que a natureza produziu na história da humanidade. Com isso, as vivências sonoras são potências a deflagrar a descoberta de novos campos, possíveis desde que o ultrapassamento dos lugares comuns se dê de modo a nos possibilitar a descoberta de nós mesmos. É a retomada do lugar poético como condição de sobrevivência do homem no mundo.   
 
Rio, agosto/ 2006.
 
 
 
 
 
ARTE, CIDADE E UM DRINK NO INVERNO
 
 
Chuva fina na noite fria do Rio. A cidade derrapa sob meus olhos desviados de O Nascimento Da Tragédia de Nietzsche: minha companhia no longo percurso. Parto em busca de novas descobertas em mais um vernissage para o meu esdrúxulo currículo de crítico-espectador saturado. Tomo o 413 rumo ao Shopping Cassino Atlântico, relaxo e deixo o tempo deslizar sob rodas atônitas. Desço do ônibus, entro no shopping e as obras espalhadas no requinte das vitrines das galerias ironizam meu torpor. Elas estão lá presas em seus mecanismos de controle.
Há tempos sou um homem cansado do showbiz das artes plásticas; saí apenas para atravessar a cidade num ônibus vazio numa noite chuvosa, sentir o cheiro do asfalto molhado, fumar meu cigarro e tomar umas no meio de gente que não me conhece e que não faço a questão de conhecer. As obras são sempre o que me movem; fui para fazer companhia a elas, pois sabia que entre as chiques madames e suas maquiagens simuladoras, os senhores empunhando seus sorrisos largos com ares de quem são os únicos a entenderem de arte e figuras alternativo-modernosas flanando por ali, ficaria mais confortável perdido nas imagens.
De repente, me percebo com um copo de whisky na mão, um cigarro na outra e aquele sentimento de vazio que me acomete nessas cenas distantes. Vago no meu silêncio batráquio e tudo que vejo é o de sempre: risos e espasmos, afetação e dandismo, déja vu reeditado à exaustão. Nada de novo sob o sol, só o ovo choca o mesmo ovo, Leminski invadindo meus pensamentos. Então, uma dose em homenagem ao poeta ou um drink no inverno.
Resvalo nos intertícios de mulheres lindas e homens bem vestidos, e como qualquer um, finjo entender o que se passa. Percebo que não há mais perigo, nem transgressão de qualquer signo, de qualquer cena. É como se uma espécie de domesticação tivesse se apossado dos artistas transformando tudo em cifras. Num instante mudo, percebo que são inúmeras galerias: leilões, lançamento de livros, vernissage e Dioniso empanturrado de mesmice. Não me sinto bem. E num relâmpago a orelha de Van Gogh cai decepada aos meus pés; Gauguin cheio de feridas leprosas enrolado em panos velhos e Oiticica dançando e se apropriando de tudo o que não era possível ser arte.
Acho que já estou bêbado com um copo de whisky. Mas não. Fito os garçons com suas bandejas de canapés sem nenhum sorriso, tento alguma intimidade para saber como se sentem naquela profunda superficialidade. Acho que é tudo que preciso: boiar na superfície senão me afogo. Mas os garçons são os verdadeiros mestres da estranheza: eles não estão ali. Só me resta disputar as guloseimas com os meus nobres desconhecidos. E as obras vão passando a minha frente uma a uma e não mais significam nada para mim. Será que o mercado comercializou a aura que me fazia buscar um outro lugar que nunca está ali no objeto? Ou só restou o seu caráter coisal de que Heidegger falava?
Corto atordoado por entre as pessoas e saio dali cambaleando, atônito e nauseabundo de arte, álcool e o vazio de sempre. Olho o asfalto molhado à minha frente e percebo que tudo que me faz falta não me permite uma análise de obra nenhuma e nem da importância delas no contemporâneo. Prefiro a cidade com suas nuanças noturnas, suas feridas expostas e seus quadros realistas a me tomar de assalto. Cartões postais que a cidade não mostra, mas estão aqui, ali, em toda parte. E meu olho não cansa: vive o movimento em falso.
Acendo meu cigarro e encaro as ruas na chuva deixando para trás a lembrança de um vazio que ainda não consigo saber se ficou lá dentro das galerias ou aqui nestes olhos que ardem na noite.  Pedro Juan Gutierrez, rogai por mim: “a arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência”(in: Trilogia Suja de Havana). E agora, meus olhos vagam na noite à procura de outras estranhezas, pois o que me move e o que quero é sempre falar destas estranhezas, desta mentira maravilhosa que é arte, ou apenas desta infindável e desesperada procura
 
Rio, novembro/ 2005. 
 
 
5 August

CONTOS

COMO PÁSSAROS NUM AQUÁRIO

Após terminar a prova mais cedo ela sai da escola sozinha antes dos colegas. Vai abraçada nos cadernos caminhando devagar para tomar o ônibus quando um garoto da escola aproxima-se e pergunta as horas. Educadamente ela responde e continua andando. No que ele pergunta novamente: “Você não é a Viviane da 801?”. Ela confirma com uma certa surpresa, querendo saber o porquê do interesse do garoto que não mostra inibição. “Desculpa, é que eu conheci uma colega tua e ela fala muito de ti. Venho te observando há algum tempo, fiquei curioso pra te conhecer. O meu nome é Sandro, sou da 805”, ele lhe estende a mão. Ela olha com certa desconfiança para ele. Reconhece sua ousadia e desenvoltura. Foi educada para reconhecer e admirar nas pessoas tais virtudes. Além do mais, não deixou de perceber os olhos de um cinza-claro brilhante e a boca bem desenhada de seu jovem admirador.

Estende a mão para o garoto. Através do toque de suas mãos correm as primeiras vibrações, produzidas pelas emoções do breve encontro. Arrepios bilaterais. Olhares ternos. Música distante. Suspensão.

Palavras cortam o tempo do encantamento; ele pede para acompanhá-la rumo à parada do ônibus. Ela consente. E os dois caminham lado a lado sob as mangueiras.

“Você fez prova hoje?”

“Ã-hã”

“Que tal?”

“Foi boa, eu adoro História”.

“Acho que levei pau em Literatura, não é meu forte.”

“Literatura me fascina. Acho que no futuro vou ser escritora. Estou lendo o ‘Mundo de Sofia’ conhece?”

“Eu ouvi falar desse livro, dizem que é legal, mas é muito grosso.”

Ela sorri.

“É sim. Mas quando você começa a ler não quer mais parar e nem percebe o tamanho do livro de tanto que você se envolve querendo descobrir segredos e enigmas que vão sendo criados. É legal porque você está ali dentro da história, conversando e...., Ah!, desculpe, é que às vezes eu me empolgo e falo demais...”

“Não, tudo bem..., isso mostra que você gosta mesmo de ler..., já no meu caso..., eu não sei o que vou fazer. Meu pai quer que eu cuide do nosso açougue. Acho que não tenho muita saída.”

“Você é filho único?”

“Não, tenho uma irmã que estuda de manhã.”

“E você?”

“Tenho um irmão mais velho. Ele faz Engenharia Química”

“Legal!”

“Está começando a chover, vamos andar mais rápido.”

“Deixa que eu levo teus cadernos pra você não deixar cair.”

“Ok!, a chuva tá engrossando, vamos parar ali no pátio daquela casa fechada.”

“Nossa, que toró!”

“Estamos presos aqui.”

“Tua mãe vai ficar preocupada.”

“É, mas ela sabe que é por causa da chuva.”

Aos poucos vai escurecendo. Os dois vão se afastando até encostarem na parede do pátio da casa. Os carros dançam na chuva. As pessoas correm de um lado pro outro e eles observam atentamente. Num gesto silencioso e lento, ele vai afastando a mão para perto da mão dela. Quando sente o toque, ela puxa a mão rapidamente e se fecha como uma concha. Ele sorri maliciosamente com um brilho nos olhos, revelando aos poucos a forte presença em território desconhecido.

“Uma vez eu vi você com uns colegas na lanchonete da escola, na festa dos dias das mães. Você tava com um chapéu grande de laço azul, lembra?”

“Você é bem observador pra um garoto da sua idade.”

“É, meu pai me ensinou que quando você quer algo é preciso conhecer, observar...”

“Então eu posso concluir com isso que você me quer?”

“Não, o chapéu. Que por sinal não era difícil de se notar, chamava bastante atenção.”

“Você gostou do chapéu?!”

“Gostei, era muito bonito.”

“Eu te empresto pra você usar qualquer dia.”

Risadas mútuas.

“Acho que a chuva tá aumentando.”

“É, parece.”

“O pátio tá enchendo. Logo, logo vai chegar aos nossos pés.”

“Deixa que eu carrego você.”

“Você não vai poder.”

“Por quê?”

“Minha mãe não deixa.”

“Ah, pensei que fosse pelo peso.”

“Engraçadiiinho...”

Mais risadas.

Mais chuva.

“Estamos aqui há um bom tempo...”

“E agora não tem mais pra onde ir...”

“É, acabou o espaço e a água cobriu nossos sapatos.”

“Que tal se a gente tomasse banho na chuva?”

“E depois pegar uma bela gripe? Minha mãe me mataria.”

“Não, a gente voaria na chuva. Não pegaríamos gripe. Dizem que os pássaros não ficam gripados.” Ele sorri.

“É, mas eu tenho medo de altura e acabaria batendo no fio elétrico.”

“Não. Ficaríamos só aqui neste cubículo”

“Você que dizer neste aquário?”

“É, como peixes num aquário.”

“Não. Se voaríamos, então seria como pássaros num aquário.”

“É, como pássaros num aquário com água da chuva”

Menos risadas.

A água no meio das pernas.

Silêncios.

Olhares.

Beijos.

ENTRE ESPASMOS ABSURDOS

para Charles Bukowski
Ela tinha boca pequena, lábios redondos, corpo esbelto, bundinha dura e sorriso travesso. Adorava comida japonesa por causa dos pauzinhos. Abria bem a boca e cuspia as palavras mais demolidoras e vociferava entre latejos infinitos. Costumava dizer que quando enfiava um na boca, só tirava quando murchava. Mas tinha uma delicadeza que me deixava impressionado, pois o tempo todo desequilibrava meus instantes. A saída era fingir-me de seguro para não exprimir, com algum desequilíbrio, meu profundo encantamento. Quando a vi passar num andar lento e pausado, senti calafrios: ela era a expressão perfeita de todas as minhas fantasias de anos a fio. E seu vestidinho branco produzia em mim espasmos absurdos. Fiquei tomado por um estranho sentimento de impotência, resultando numa abordagem inequívoca: contentei-me em apenas olhá-la. Seu sorriso era intenso; quando ria tornava-se um animal destruidor. Era um misto de sedução e meiguice: a fórmula certa para colocar qualquer um imóvel. E ali estava eu, paralisado, e com meus delírios tontos por causa de uma femeazinha tesuda.
Numa noite em que o sono não veio, fiquei lá, na porta do quarto, olhando a cama vazia e imaginando-a nua com sua bundinha perfeita empinada. A bocetinha arreganhada iluminada por pouca luz que entrava pela janela do quarto, lambendo-a por trás. Quando bem meladinha, enfiava a língua naquele cuzinho perfeito, como que à procura dos lugares mais recônditos daquele orifício devastador. Nada mais era possível para se atingir a perfeição, do que a imaginação de um homem torto.
Uma noite sem sono parecia tão fundamental quanto aquelas cheias de prazeres concretos. Via-a em todos os ângulos possíveis, e o sorriso nunca sumia de seu rosto lindo. Tudo o que ela fazia era apenas sorrir levemente. Aquele sorriso era de um sadismo atroz. Ela sabia o tempo todo o que se passava em minha cabeça. O quanto queria possuí-la numa noite fria sob lençóis macios. Colocá-la em meus braços e submetê-la às mais simples sensações: beijar sua boca, sugar sua língua, chupar seus pequenos mamilos e amanhecer olhando seu corpo iluminado por uma luz azul.
Mas a motivação que gerava meus espasmos absurdos era tão somente um simples detalhe que nada tinha a ver com ela: eu tinha apenas oitenta anos e minha janela era alta e com grades sujas. E todas as tardes ela tomava minha cadeira de rodas e me levava para ver o pôr-do-sol, por entre as árvores daquele inverno silencioso.

BOLADONA
A noite
A noite é perfeita. E as línguas vagueiam pelo meu corpo. Flores estranhas caem sobre meu colo. A paisagem é suja e estou simples e aberta para todas as cenas possíveis. A menina mais linda da festa me dá mole e eu sei que no final vou comê-la de um jeito intenso. Mas tô boladona querendo muitas coisas dentro de mim: línguas, picas e afins. Ela se chega como quem não quer nada. Mas já estou andada nessa cena e sei o que ela quer. Vou aproveitar pra deitar e rolar naqueles peitinhos lindos. Ela é uma ninfa perfeita com seu estilo moderninho e eu a velha chapada que vai pegá-la. Ela se aproxima e finjo que estou carente e deprê e ela cai nessa armadilha. Chega de mansinho. E eu, entregue para todas as experimentações. Brindamos a noite. Eu com minha taça de campari e ela com sua lata de cerveja. Entramos no banheiro juntas e caímos matando. Minissaia levantada, chupadas perfeitas, dedinhos correndo solto e lambidas radicais. Ela pira e eu sempre com minha língua perdida no grelo dela pelo lado da calcinha. O banheiro é apertado, mas a gente se vira. Nos amassamos naquele micro-espaço. Ela é um tesãozinho e eu adorei o cheiro dela. Nos desvencilhamos e saímos fora pra curtir a galera. Tudo muito rápido e ilógico como dois e dois são qualquer coisa. Ela fica me olhando a noite toda e eu pirando, derrapando de tesão por ela. Mas o ônibus é o limite. Tchau baby, a gente se vê por aí.

O boteco

Estou completamente chapada e de onda. Preciso desesperadamente tomar a última. Desço do ônibus em movimento como uma louca na noite. Acendo um cigarro e vagueio pelas ruas. Encontro um boteco aberto. Nem sequer sei onde estou, mas tudo o quero é sentir uma cerveja gelada descendo na minha garganta. Entro e sento numa mesa. Pinta uma dona estranha com uma lente de contato azul e uma tatuagem de um beija-flor no pescoço. Ela sabe das coisas. Dá um sorriso e pergunta se tô afim de uma bebida. Só quero uma cerveja. Ela traz uma geladinha e viro no gargalo mesmo. Ela sorri com um olhar antropofágico. Diz que sõo três reais. Pego minha bolsa procuro a grana, mas não tenho nada. Digo a ela que tô sem nada e se posso pagar amanhã e que posso deixar minha carteira de identidade. Ela pergunta se pode beber comigo. Fico confusa, mas logo cai a ficha e digo que sim. Tomamos umas cinco geladas e ficamos ali batendo papo e nos conhecendo. Ela me elogia e me canta sutilmente. Pergunta se não quero dormir lá e ir de manhã porque já ta tarde e não tem mais ônibus. Tô por conta do foda-se. Concordo e viro o copo e ela enche de novo. Flutuo no tempo e no espaço e logo me encontro com a boca numa boceta enorme. Ela me come como nunca. Deixo-me levar por aquela língua intrépida e ácida. Estamos ali, chapadas e cheias de tesão. Ela vai buscar uma garrafa de Martini, derrama na minha boceta. Esperneio, mas adoro e deixo ela me invadir. Ela tem muita técnica e me deixa louca pirando nos universos mais absurdos. Ela me come do jeito que quer. E eu deixo ela fazer o que quer fazer. Sinto-me linda, tonta, louca e leve. Ela tem seus encantos sórdidos. Possui-me imensamente num rio de peixes estranhos. Agora são as estrelas do céu caem em meu colo. Aquela boca que eu tanto queria beijar ontem à noite partiu e estou aqui com minha dona me usando ao seu bel-prazer. Tudo é tão simples e sinto que já paguei pela bebida. Ela acende um baseado e depois de gozarmos lindamente fumamos tranqüilas e em silêncio. Sou uma nova mulher, perdida em meus pensamentos sobre nada. Apago. Acordo num pulo pensando na Revolução Francesa e descubro que estou em um lugar que nunca vi antes: lençóis que nunca vi. Uma mulher que odeio e tudo em volta completamente ridículo. Visto-me rápido e ela fica lá jogada com sua xana exposta. Será que estou vendo coisas? Procuro a bolsa dela e tiro dez reais e sarto fora daquela casa que jamais imaginei invadir. Tomo o ônibus rumo a minha casa. Tchau, baby, quem sabe a gente se esbarra por aí. Caralho, ainda tô muito chapada.

ET, telefone, minha casa

Essa sou eu: amarrotada, amontoada, fedendo a álcool e sexo e sentindo a vida no seu flutuar ininterrupto. Uma grande tela de cinema só pra mim. Salto do ônibus no vento e toco os pés no chão. Fico presa, estática. Os olhos querem saltar das órbitas. Ácido lisérgico ainda pulsando na mente. Baseado desordenando o trecho. Um tempo imenso para chegar até a entrada do prédio, tomar o elevador e desabar na cama. A roupa preta grudada, o piercing refletindo os raios do sol que me queimam inteira. Lentos latejos. Puzzle: a paisagem desmontada; preciso montá-la para achar o trecho que me cabe. Tico e Teco fodidos e brigando de novo nesta manhã quente e o corpo não responde à cabeça e vice-versa. Ainda estão em meu corpo as marcas da língua da dona do boteco. Eu só queria tomar a última, mas não tinha mais um puto no bolso. Ela tinha uma língua estúpida. Talvez haja uma sombra lá na frente. Os cordões do coturno estão totalmente desamarrados. O muro que se estende a minha frente produz uma perspectiva renascentista que se descortina no infinito do meu olhar. Caralho, hoje tem prova de História. Foda-se a Revolução Francesa! Robespierre é viado. Que Marat se foda e meu xiri cresça. Putz, não consigo abrir os olhos. Primeiro passo: tudo escorre diante de mim. Minhas veias pulsam, meu coração acelera. Estou aqui agora pedindo que um carro chegue, mas se for só uma carroça vou do mesmo jeito. Atropelo a manhã para chegar em casa e sinto que tudo se abre. Passo a mão no cabelo e me sinto linda de novo, só por um segundo. Resvalo na calçada me seguro na parede e continuo andando. Et, telefone, minha casa. Abro os olhos de novo e a escada rir de mim: piso no peito dela e digo que eu moro aqui e ela não tem nada a ver com isso. Abro os olhos de novo e meu teto está ali. Nunca foi tão lindo ver o meu teto sujo outra vez. Apago. A tarde se anuncia como quem ironiza meu entorpecimento. Vou à geladeira e pego a caixa de leite que deixaram lá pra mim. Não tem porra nenhuma. Avisto uma latinha de cerveja. Porque ela tá ali e não o leite. Até parece que odeio isso. Merda irônica. Dou um longo gole e me atiro sobre os meus lençóis. Dou tchau pro dia e assim dos lábios a vida corre, deixando um acre sabor na boca.[1]



[1] Desencanto, poema de Manuel Bandeira.

ENTRE CHICOS
“Ele vinha sem muita conversa, sem nada explicar...”. O quanto gostava do Chico era indizível. O quanto gostava do Chico II, como chamava o marido, era indescritível. Achava que num tempo em que 90% do que é produzido pela indústria fonográfica é lixo, preferia esconder-se em melodias e versos velhos de alguém que sempre soube falar bem das mulheres. Chico II entra no quarto, ela dorme tranqüila enrolada nos lençóis ao som de Chico. Ele senta na cama, tira o sapato, as meias, a calça, a camisa, a cueca, o cordão, o relógio, e deita ao lado dela que ronca levemente. Ele enfia as mãos sob os lençóis e sente a textura dos pêlos e a boceta suada. Espalma a mão angulando-a toda. Ela não abre os olhos, nem se move. Ele enfia o dedo. Tira devagar. Sobe rumo ao cu. Enfia rápido e escuta um gemido abafado. “Eu bem que avisei a ela...”. Chico II continua alargando o sempre desejado orifício anal. Chico continua alargando as experiências sensíveis, em versos perfeitos, da mulher que vive entre Chicos.



SIMPLESMENTE
Chega tarde do trabalho e sente-se colocando aquela envergadura toda sobre aquela delicadeza toda. Como se para esquecer, pelo amor, as humilhações patronais. Janta calado; olha o reflexo da luz no prato de comida, mastiga e engole lentamente arranhando a garganta. Ela arruma tudo, enquanto ele escova os dentes enferrujados dos dias. Deitam-se. Ela ali com um suspiro desejante. Ele cravado no teto. Aos poucos roça a ponta do dedão do pé nos pêlos da perna dele. Fixa os olhos no tecido do seu short azul, a esperar o momento em que o volume do pau irá alterar a configuração do tecido. Segundos depois, grandes dedos estão a separar pequenos lábios. Ela crispa-se com os olhos no teto. Vai abrindo as pernas lentamente; dedos pontiagudos em movimentos circulares produzem as sensações de sempre. Algo de estranha felicidade apossa-se dela: dentes cerrados, coluna arqueada, músculos esticados à exaustão. Contorce-se em gozo. Vira-a lentamente colocando sobre as costas dela os muitos sacos de cimento que havia carregado o dia todo. Afunda incomunicável boceta adentro. Ela vê tudo claro no quarto numa luz intensa. Seu rosto magro, ilumina-se. Pensa que jamais vai entender isso que chamam de amor. Mas, se o é, ama, simplesmente.
25 July

HUMORTAL (Livro de Poesia)

HUMORTAL



Este livro é dedicado a
Manuel Bandeira
Oswald de Andrade
José Paulo Paes
e Paulo Leminski
minhas fontes de encantamento.



humortal




LEMBRAS QUE PODES CHUTAR O CACHORRO

marcas de pés na parede
e moscas voando
sobre um pão velho mordido
se aquele dente doer de novo
juro que arranco sem dó
se a margem de lucro for pequena
o dono da venda vai beber de novo
que sábado chato
rápidas passadas de mãos nos cabelos
e o rosto comido pelo sol deste norte
atrapalhar a voz quando nela me encontro
é só uma forma de dizer coisas absurdas
sobre o que ninguém nem liga mais
se acordares meio puto da vida
lembras que podes chutar o cachorro
(teu amigo mais próximo)
é o que eu faria por mim

 

DIA CRÔNICO

as horas rastejam
amarelando
meus dentes
eternamente

 

CIRCO

tuas palavras
facas de ponta
ando me equilibrando
sobre elas

 

FESTA

os homens
bebidas
as mulheres
comidas

pro Luis, de Breves/Pa

 

HAI KAI DE SANTO

Um anjo lindo
Bashô
em mim

 

NARCISÍSSIMO

desenhou
o próprio rosto
no espelho

 

REMINISCÊNCIA PATERNA

quem foi
que fez
cocô aqui
Kafka?!

 

VAGALUME

meus olhos
na escuridão
do teu mundo cão



SÁBADO FRIO

foi encontrado
na Praça da República
com uma ponta de ciúme
enterrada no coração

para Manuel Bandeira

 

LOBISOMEM

comi-a
até o
nome

 

 

22 June

PÉROLAS BUKOWSKIANAS PARA OS PORCOS

PÉROLAS BUKOWSKIANAS
PARA OS PORCOS

(Org. Luizan Pinheiro)

- Está bem, Deus, caso você esteja mesmo aí. Você é que me colocou nesta. Quer me testar. Suponha que eu teste Você? Imagine se eu disser que Você não está aí? Você já me submeteu ao teste supremo com meus pais e essas feridas. Acho que passei no Seu teste. Eu sou mais durão que Você. Se Você descesse aqui bem agora, eu cuspiria no seu rosto. E Você caga? O padre nunca me deu essa resposta. Ele disse para não duvidar. Duvidar de quê? Você tem grudado demais em mim, portanto, eu estou pedindo para que Você desça aqui e aí eu Te testarei! (Misto Quente)

- Meu amor por ela não era sexual. Eu só desejava que ela me envolvesse na sua brancura engomada e que juntos pudéssemos desaparecer deste mundo. (Misto Quente)

- Uma mulher veio andando pela rua na minha direção. Tinha pernas ótimas. Primeiro eu olhei ela nos olhos, depois nas suas pernas e, assim que passou, olhei o seu rabo, lambi aquela bunda. Memorizei aquele traseiro e as costuras de sua meia de seda. (Misto Quente)

- Você pode perdoar um idiota porque ele sempre anda na mesma direção e nunca ilude ninguém. São os enganadores que fazem você se sentir mau. (Misto Quente)

- Ninguém sabia como eu era bom, ninguém sabia o que eu podia fazer. Eu era uma espécie de maravilha. O sol tingia tudo de amarelo e eu atravessava isso, como uma faca maluca sobre rodas. Meu pai era um mendigo nas ruas da Índia mas todas as mulheres do mundo me amavam. (Misto Quente)

- Odiava todas aquelas malditas pessoas que tomavam sol, ou nadavam, ou comiam, ou dormiam, ou conversavam ou brincavam com bolas de praia. Odiava suas costas, seus rostos, seus cotovelos, seus cabelos, seus olhos, seus umbigos e seus trajes de banho. (Misto Quente)

- Nunca haveria um modo de eu viver tranqüilamente com gente. Talvez me tornasse um monge. Eu fingiria que acreditava em Deus e viveria num cubículo, tocaria órgão, e ficaria bêbado de vinho. Ninguém me foderia. Poderia ficar numa cela meditando durante meses e não teria que ver ninguém, eles só teriam que continuar mandando o vinho. (Misto Quente)

- Fechei os olhos e ouvi as ondas. Milhares de peixes aqui fora comendo-se uns aos outros. Inúmeras bocas e cus chupando e cagando. O mundo inteiro não era nada mais do que bocas e cus chupando e cagando, e fodendo. (Misto Quente)

- Se não fosse pelas feridas e pelas marcas eu estaria lá agora mostrando pra elas uma coisa ou duas. Exibiria as bolas do meu saco pra elas, chamando atenção daquelas cabeças cheias de vento, inúteis. Eu, com o meu padrão de vida de 50-centavos-por-semana. (Misto Quente)


 

Pinheiro Luizan

職業
興趣
Como surge a arte? Como remédio do conhecimento.
A vida só é possível graças a imagens artísticas delirantes.
(Nietzsche)
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